Vocações do Antigo Testamento - Samuel (1Sm 3.1-21)

O Senhor chamou Samuel" (1Sm 3,4)

"Iahweh chamou: 'Samuel! Samuel!' Ele respondeu: 'Eis-me aqui!'"

No meio da noite, o jovem desperta, ouvindo o ressoar do seu nome. Não hesita em responder com prontidão. Está disposto a acolher o que o Senhor lhe quer propor. Deus tem um plano para Samuel mas... este ainda está a aprender a discernir a voz de Deus. Eli, o sacerdote, a partir de sua experiência, ajudará Samuel a discernir a voz de Deus.

Não basta simplesmente a disponibilidade para dar uma resposta, é preciso saber distinguir a voz daquele que chama e conhecer que passos concretos devem ser dados. Como o jovem Samuel, tu e eu precisamos de aprender a servir-nos dos meios humanos para escutar o apelo do Senhor.

Que meios são esses? As pessoas, os santos, o trabalho, os acontecimentos, a Igreja…a história de cada um. Deus tem prazer em usar esses meios humildes para falar aos seus filhos. Neles Ele torna-se muito próximo, mas ao mesmo tempo: escondido. «Ele esconde-se entre as panelas» já alertava a grande Santa de Ávila, Teresa.

Mas ao perceber o chamamento de Deus não se pode titubear, é preciso levantar-se do sono—muitas vezes profundo—e ir ao encontro da novidade de horizontes que Deus descortina diante dos seus amados. Fundamentalmente o chamamento é uma declaração de amor. Amor que passa pela escolha: escolhidos porque amados. Não é uma eleição fria, interesseira. Deus primeiramente chama para que estejamos com Ele (cf. Mc 3,14). A vocação não consiste primeiramente em fazer coisas, percorrer mundos, cuidar disso ou daquilo. O primeiro fim da eleição divina é para que sejamos um tesouro para Ele. Cada vocacionado pode escutar da boca do Senhor aquelas suaves palavras dirigidas à esposa do Cântico: «Tu és meu tesouro». A vocação é uma graça de pertença. Nela a pessoa se vê completamente envolvida, por isso a vocação exige sempre um amor que se disponha percorrer o caminho da maturidade até chegar a ser pessoal, real, apaixonado e totalizante. Pessoal porque afeta à pessoa mesma e se dirige ao Senhor enquanto pessoa viva e não mero objeto de veneração. Neste encontro de amor que marca o chamamento a pessoa  pode realizar a capacidade de amar com todo o coração. Esse amor é também real, ou seja,  é o contrário de um amor teórico ou sentimental, ou simplesmente de fachada, de frases feitas… O amor real é aquele que se realiza na vida concreta de cada dia, que leva a imitar e a entregar-se ao amado… Logicamente é um amor apaixonado. Se pensarmos bem  estamos a falar do amor à pessoa de Jesus, nosso criador e redentor, o amigo que deu a sua vida por nós, não podemos pensar nesse amor senão como uma verdadeira paixão de amor. Um amor forte e entusiasta— «forte como a morte» (Ct 8,6)—, esse amor que é capaz de vivenciar a entrega também nos momentos difíceis e pode levar até mesmo ao heroísmo. Finalmente é um amor envolvente, totalizante. Deve estar no centro do coração e da vida. Diante dele, todos os outros amores—família, amizades, encargos pastorais—se relativizam, encontram o seu critério no amor do Senhor.

Senhor, que eu me disponha a ouvir a tua voz, sendo capaz de silenciar inúmeras vozes o que me distrai do essencial e me rouba a alegria de estar totalmente à Tua disposição. Que eu procure entender que tudo o que me acontece faz parte dos apelos contínuos a que  Tua suave voz me chama.

Rosário Vocacional

Vocações do Antigo Testamento - Jeremias

Jeremias 20, 7-9
7Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me dominastes e vencestes. Em todo o tempo sou objecto de escárnio, toda a gente se ri de mim; 8porque sempre que falo é para gritar e proclamar: «Violência e ruína!» E a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias. 9Então eu disse: «Não voltarei a falar n’Ele, Não falarei mais em seu nome». Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.


Este texto é uma parte de uma das chamadas «confissões de Jeremias», as dolorosas lamentações do Profeta numa situação tremendamente dramática, após a trágica morte do rei Josias; prisioneiro da paixão por Deus, que o leva ao cumprimento fiel da sua espinhosa missão profética, Jeremias sente a repugnância instintiva do sofrimento que este desempenho lhe causa, pois isto era o pretexto para os seus adversários o acusarem de ser ele o culpado de todas as desgraças que desabavam sobre o povo, desgraças que haviam de culminar na conquista e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 587 a. C. e no exílio de Babilónia. Jeremias chega ao ponto de, em dolorosos desabafos, amaldiçoar a sua vida, mas, ao mesmo tempo, mostrando uma inquebrantável confiança em Deus. Deixou-nos os mais belos textos literários que exprimem o drama da dor humana de um homem de fé: a fina e delicada sensibilidade de Jeremias como que se revolta, chega ao paroxismo e desata em doridos desabafos que se devem entender não como gritos de revolta, mas como queixumes ditados pela confiança e abandono nas mãos do Senhor. Deste texto depreende-se claramente a sobrenaturalidade da sua vocação profética: se este carisma fosse algo de imanente, não faria sentido que se queixasse a Deus de o ter seduzido – «Vós me seduziste, Senhor» (v. 7) – e de não conseguir dominar o impulso interior que o levava a profetizar: «mas havia no meu coração um fogo ardente… Procurava contê-lo, mas não podia» (v. 9). Pelas provações que teve de sofrer, o profeta celibatário, é considerado como uma figura de Cristo, casto e sofredor.
A notável obra do profeta de Anatot encontra-se muito desordenada, sem uma sequência natural, em parte ter sido mandada queimar pelo rei Joaquim; os seus oráculos, postos por escrito pelo seu secretário Baruc, foram recolhidos de modo muito disperso, como é fácil de verificar. As confissões de Jeremias encontram-se em: Jer 11, 18 – 12, 6; 15, 10-21; 17, 14-18; 18, 18-23; 20, 7-18. 

Tu me has seducido (Jr 20 7-9) - Hna Glenda - Nuevamente, A solas con Dios

Hermana Glenda (CON NOSTALGIA DE DIOS)